[...] toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa dos seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. [...]No dia seguinte, chamei Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…— Oh! meu senhô! fico.— … Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…— Artura não qué dizê nada, não, senhô…— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.— Eu vaio um galo, sim, senhô.— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar (simples suposição) é então professor de Filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.ASSIS, Machado de. Crônicas escolhidas de Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1994.Nesse texto, percebe-se o estilo de escrita singular de Machado de Assis que o consagrou como o maior representante do Realismo brasileiro. Identifique, a seguir, uma característica do autor presente nesse trecho da crônica.a)Abordagem precisa e objetiva dos acontecimentos.b)Uso de ironia e humor para criticar aspectos sociais.c)Presença de elementos essencialmente regionalistas.d)Emprego exclusivo de linguagem formal e rebuscada.e)Foco na subjetividade e nas emoções das personagens.
Question
[...] toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa dos seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. [...]No dia seguinte, chamei Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…— Oh! meu senhô! fico.— … Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…— Artura não qué dizê nada, não, senhô…— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.— Eu vaio um galo, sim, senhô.— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar (simples suposição) é então professor de Filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.ASSIS, Machado de. Crônicas escolhidas de Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1994.Nesse texto, percebe-se o estilo de escrita singular de Machado de Assis que o consagrou como o maior representante do Realismo brasileiro. Identifique, a seguir, uma característica do autor presente nesse trecho da crônica.a)Abordagem precisa e objetiva dos acontecimentos.b)Uso de ironia e humor para criticar aspectos sociais.c)Presença de elementos essencialmente regionalistas.d)Emprego exclusivo de linguagem formal e rebuscada.e)Foco na subjetividade e nas emoções das personagens.
Solution
b) Uso de ironia e humor para criticar aspectos sociais.
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QUESTÃO 13Enquanto Homero escrevia para cantar a glória e o nome dos heróis e Heródoto, para não esquecer os grandes feitos deles, o historiador atual se vê confrontado com uma tarefa também essencial, mas sem glória: ele precisa transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados. Sua narrativa afirma que o inesquecível existe mesmo se nós não podemos descrevê-lo. GANEBIN, Jeanne Marie. Lembrar Escrever Esquecer. São Paulo: ED. 34, 2014Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento de perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In : BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2012.Os textos selecionados trazem uma abordagem sobre a história. Eles se aproximam ao mostrar que o passado não pode ser narrado. o historiador tem papel político com o objeto narrado.a história é um elemento imutável.o passado não se embasa no real, mas na articulação de reminiscências.o papel do historiador se altera ao longo do tempo.
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